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Mostrando postagens de 2008

Eu confesso

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Tenho uns poemas escritos na minha junventude que nao mostro à ninguem e que já estiveram durante um tempo na condiçao de renegados, arquivo morto entre minhas coisas... Restaurados e reetabelecidos guardam um ar rebelde, de resitência, elo com uma época que viví. Um vínculo muito especial com um tempo levado a plenos pulmoes; quando de carona se ía a qulalquer parte do país e o que tomávamos na vêia era amor platônico ou paixao de verao, cumplicicade com a subversao ou até mesmo militância e risco no parto de um país a transformar-se. Admito; coisas fúteis também, como velocidade, camping selvagem, festivais e fogueira debaixo das estrelas... A vida é o que você vívi; você é as coisas que viu, lugares que conheceu, com cor cheiro e som. Respire fundo, ouça e veja: “estamos rodando, luz, câmera, ação!”. E o melhor de tudo isso é que estamos no comando e podemos escolher, cada um dentro de sua margem de manobra, o rumo de sua própria história.

Sem título para falar da morte

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A morte tem paciência e não tiro olho da batalha interna que enfrenta cada um. Aqueles que aceitam a efemeridade da vida e das circunstancias, que estamos todos de passagem aqui atraem com seu sorriso a fortuna. Os que têm vertigem e vêm seu fim desenhado no fundo do abismo e se sentem cansados, descontentes e infelizes são acompanhados com predileção pela morte. Estes já estão convencidos e o tênue fio que os sustenta pende de seu apego ao mundo e às coisas materiais; perdê-lo é o abismo em que imaginam seu fim. Aqueles primeiros e poucos, com sua convicção não se permitem apegar-se ao que não cabe na “bagagem” espiritual, único bem que se pode levar consigo aonde quer que vá. Nela cabem sensações recolhidas ao longo da vida, com que vamos compondo um patrimônio invisível, porém suficientemente forte, um tronco da alma; ao ponto de poder caracterizar-nos como felizes ou tristes, fortes ou fracos, aspectos estes, importantes e decisivos no momento final.  A morte ronda os moribundo...

O Sonho

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Um dia acordei pela manha com as últimas imagens do sonho que tive naquela noite, ainda sentia as gotas de água fria que salpicaram minha cara ao debater-se no ar um peixe de quase trinta centímetros preso por um anzol. Havia sido pescado de cima da ponte em que estávamos e que era meu caminho habitual; como ás vezes acontece nos sonhos, não prestei atenção ao detalhe de quem era o pescador. O que me chamou a atenção estava embaixo, outro peixe, este enorme, meio boiando meio submerso de barriga pra cima nas águas tranqüilas do rio; tão grande como uma pessoa tinha uma enorme cicatriz aberta, de onde foi pescado, entre outros, o relutante peixe que me salpicou a cara me dando um grande susto ao ponto de despertar-me. Quem se arrisca a interpretar?

Dias Felizes

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Fechei os olhos e por um instante revi lugares em que estive em dias que, pela frescura das imagens, a beleza dos lugares e a vivacidade com que se conservam em minha memória me levam a pensar que podem ter sido os mais felizes. Nada é mais animador que o que sinto quando recordo tais dias, combustível indispensável para seguir, sabendo que são verossímeis.

Silencios

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Às vezes me refugio no silencio; Elimino o som do televisor e vejo que as imagens me transmitem muito mais assim. Percebo que a ausência de som não é ausência de vida e a falta de palavras não é solidão. Tantos discursos estão construídos com palavras e sons que ao cessar-los adquiro algo de independência. As imagens retransmitidas sem palavras deixam possibilidades de interpretá-las com calma, como são. Assim é mais difícil mentir. Silêncios voluntários em uma conversa podem dizer mais que palavras. E estas, desconfio, estão feitas para convencer a nos mesmos ou ao interlocutor. Com elas nos comunicamos eu sei; mas num determinado nível, na intimidade entre as pessoas de uma casa, de uma relação e até mesmo de uma aldeia inteira são dispensáveis; no intercambio de olhares se desliza cumplicidade, paixão, repúdio ou acolhimento, carinho e até mesmo ódio. As palavras têm seu momento imprescindível e diante de sua força não está mal saber atravessar as águas convulsas das emoções para, q...

Diario de mochila I

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Uma enorme parabólica sensitiva rastreia um vasto âmbito do universo; seu movimento é lento, mas suas placas côncavas podem captar qualquer sinal que se emita de qualquer lugar e repetir-lo dentro do raio que varre, no momento exato em que executa sua patrulha extra-dimensional. No entanto, nebulosas, distrações pessoais e coletivas, tempestades atmosféricas, obsessão consumista, eclipses, alienação espiritual e fundamentalismo, outros efeitos colaterais da natureza e de comportamentos ancestrais não superados interferem nos sinais que chegam em intermitências variadas e sutis. As vezes, alertado por dados confusos e aparentemente insípidos, por imagens caóticas que não se plasmam completamente ou mesmo por curiosidade saio da comodidade de meu sofá, atravesso a sala e pela porta dos fundos me dirijo ao suporte com que elevo ao mais alto que posso minha antena e giro a base em busca de sintonia.

Diario de mochila II

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Quero voltar ao tempo em que se via e se distinguia as pessoas pela alma. Cada um era um universo, com seu sol, satélites e estrelas quando, atravessando camadas pessoais como cor de pele, religião, etnia, nacionalidade, preferência sexual ou classe se enxergava através dos olhos a pessoa que está no fundo de cada um, e um forte aperto de mão era uma saudação sincera em todos os lugares. Quero voltar ao tempo da inocência.

Diário de mochila III

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As vezes as coisas têm para mim um preço que vão além do que aparentam e são mais difíceis que pensava e quando se convertem em um sacrifício penso que não será passível, superior às forças que tenho... Quando é assim a única coisa que me resta é afastar e alongar meus limites sem desrespeitá-los bater meus próprios recordes; isso impede que eu desista e que com a vontade de superar-me descubro que posso mais que pareço.

O Sentido de Tudo

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…quando você vai a algum lugar por seu próprio esforço e determinação… E coincide que há calmaria… quando ainda restam horas de um bom dia… Quando nuvens se insinuam ameaçando tapar-lhe o sol que brilha para você, mas se vê que estão fragmentadas, com gretas e até com lacunas inteiras de luz permitindo equacionar os tempos claros e escuros;  que você vai ter, a intervalos na intermitência do tempo, de situações, da posição geográfica, do lugar em que você está…e talvez até do que você sente naquele momento ... é que se vê que,   tudo tem um sentido.

Diário de mochila IV

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Já olho a cidade como quando cheguei, estranhando e entrañando (como dizem aqui) voltei a fotografar seus lugares mais vistos por todos que aqui vêm talvez agora com outro olhar, com alguma intimidade, sem deixar de identificar, como qualquer turista, o lugar em que estou; será que começo a despedir-me? Quê que você acha? Vê se adivinha que lugar é este.

Diário de mochila V

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Existem becos, ruelas de todos os tipos e lugares, em Getxo, Bilbao ou na Rocinha; em Lisboa ou Bangladeche. Você vai andando pelas ruas e avenidas das cidades por onde passa, por quarteiroes inteiros e sempre ao final encontra um beco; ás vezes é uma escadaria que dece ao porto ou sobe a um morro, ou é um corredor comprido com portas e depois com portas e tambêm janelas, estreito, por uma greta em cima o céu, roupas penduradas no varal, no batente de uma janela um gato dorme ao sol; sacadas diminutas sobresaem-se de artesanais edificaçoes. Em Ouro Preto brotam musgus do arrimo dos casaroes, no Casco Viejo de Bilbao pelas paredes ricocheteam notas saídas da garganta de algum canário de gaiola. Cada beco é diferente do outro, mesmo assim em Siete Calles, na Cabana, em Getxo ou na Rocinha é fácil se perder se você nao conhece e anda por eles ... e isso acontece em qualquer lugar quando tudo se embaralha e parece igual ... e você pára, olha para um lado e para outro e se pergunta: “J...

Qual é o seu desejo?

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Qual é o seu desejo? Qual é o seu sonho, a sua cor preferida, seu gosto, seu dia predileto? Me refiro àquela corda sensível em você que quando se toca te faz vibrar inteiro fazendo com que se desprendam ondas invisíveis de contentamento que se expandem e se espraiam ao mais lindo, íntimo e profundo universo, acrescentando algo mais a sua etérea essência. Qual é seu desejo? Qual é seu sonho de vida? Manifesta-o uma e outra vez; reza-o ( o universo pode te ouvir), vá atrás dele! ... Lembre-se; o seu sorriso é o maná dos que bebem da esperança de ser feliz.

O amigo Que Veio do Deserto

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Hama é un tipo curioso. Quase não fala espanhol, mas, quando vê gente trabalhando aqui em casa, um eletricista, um encanador ou os pintores que vieram outro dia, se aproxima, pergunta, comenta algo, quer conversar. Seu idioma pátrio é um dialeto árabe do norte do Saara Ocidental. O espanhol aprendeu na infância como língua secundária durante a ocupação de seu país por Espanha. Manca um pouco, se apóia mais em uma perna mecânica que substitui a que perdeu ao pisar uma mina explosiva no deserto; sonha com uma prótese e se vê mais próximo de seu sonho desde que chegou e veio morar conosco em nossa república de rapazes. É estranho para mim que já o entendo um pouco vê-lo expressar-se assim, sem quase ser entendido em seu afã de ser cordial com os espanhóis... se é que se podem chamar assim os daqui já que eles, a parte do castelhano, também tem seu próprio idioma. Nós aqui nos entendemos; com poucas palavras, mas nos entendemos.

De Um Orelhão Na Estação de Trem

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Com toda a preguiça do mundo, depois de levantar da siesta, de estar lendo o jornal nesta tarde de domingo em que o sol forte me desanimou de ir a praia me custa muito agüentar de pé diante da pia para arrumar a casinha; Enquanto lavo pratos me lembro do dia em que deixaram notas em todos meus espaços virtuais para que telefonasse o quanto antes para minha mãe; Lembrei-me também que o fato que gerou a urgência daquela chamada se desenrolou num dia assim... Justo quando eu estava, como agora, arrumando a cozinha... e chegou um amigo que era repórter fotográfico em uma editora. Sentou-se e enquanto eu terminava o que fazia me contou em que estava trabalhando e me perguntou se podia tirar uma foto de mim, “aí, assim mesmo, como está” e eu com uma bucha de “bombrio” na mão e avental diante da pia. Na chamada que fiz de um orelhão da estação de trens daqui de Bilbao a minha mãe em Belo Horizonte , me dizia ela eufórica: “te vi numa foto num livro da biblioteca pública meu filho! Você...

Palavras Exatas

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Ao comentar meu blog, me perguntaram se virei poeta. Poderá alguém transformar-se em poeta? – me perguntei então. Não creio, mesmo que se esforçasse. O que acontece comigo é que não encontro palavras exatas para expressar o que sinto; o que penso expresso em outro espaço, nos blogs do MACACA e do SOS Serra da Piedade, por exemplo. De querer expressar coisas que me despertam algum sentimento nasceu este blog pessoal; nele tento contar e compartir essas coisas que vejo, vivo ou que quero viver e que podem perder-se facilmente na memória, sentimentos do dia-a-dia que são fáceis de esquecer, águas que não fazem girar o moinho (tá vendo? Outra vez! Nem falando sério...). Assim você sabe um pouco como sou e o que estou sentindo.

O Péndulo

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Às vezes procuro a tranqüilidade dos barcos que balançam suavemente amarrados; me atrai a lentidão com que manobram, a suavidade com que acariciam o porto para por fim atracar-se, há uma elegância ao partir e ao chegar. Até as gaivotas do porto são mais afoitas, mesmo assim seu vôo é cerimonioso e seu grunhido é melancólico como um adeus. O tempo e o ritmo numa baia estão submetidos às normas da natureza e o mar como pendulo da vida ali se impõe... Sábio é respeitá-lo e esta submissão me agrada, Há inteligência nos que vão e voltam sãos e salvos. Os barcos que flutuam atados ao porto, suave e simplesmente esperam.

Espreguiçar

Ai que vontade de fazer algo grande, De tomar partido nesse atrito dinâmico do universo: de um lado uma força devastadora e de impacto, o progresso; do outro, frágeis eco-sistemas; desse uma existência alienada, inconseqüente e individualista de consumo; do outro voluntariado, engajamento e idealismo; de um lado arte, cultura e entretenimento televisivo e de massas; de outro, fluxos migratórios, línguas mortas, guetos; refúgios de fauna e flora, rústicos territórios indígenas, aborígines ... Antes mesmo que eu me decida já está tudo pensado, acoplado ao conforto diário do urbanismo de nossas vidas; nele nos dão, na “imparcialidade” dos meios de comunicação dúvidas, receitas de cozinha, novelas, indecisões... Assim seguimos sem pensar, nos mantêm informados “outro carro bomba explode em Bagdá...”, zumbis sem alma, nem espírito num bar ás oito ou em casa sentado no sofá; apenas boca, olhos, braços e ouvidos, órgãos vitais para o consumo alimentar.